sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Atividades de leitura (1)

Olá, pessoal.
Uma das grandes preocupações no ensino de português para nossos alunos surdos é em relação à compreensão leitora. Esta também é uma preocupação constante dos professores que ensinam português para crianças ouvintes, portanto, pode-se dizer que é uma questão comum nos dois contextos. Entretanto, no caso dos surdos existe um diferencial que passa, inevitavelmente, pelo universo lexical disponível a estes alunos nas suas experiências de vida. E, acrescentamos, não apenas em relação ao domínio de palavras escritas em português, mas aos conceitos que permeiam as atividades diárias, não apenas o nome das coisas, mas o que elas significam e representam dentro do mundo onde vivemos.
Sabemos que a pessoa mais próxima do bebê, seja a mãe ou outra pessoa que ocupe este lugar, é quem nomeia o mundo para a criança, diz o que é um objeto, sua função, do que é feito e estabelece as relações entre os vários elementos que compõe o contexto onde tal objeto está inserido. O que ele representa numa determinada cultura, portanto. É a mãe, geralmente, quem diz que a colher não é um brinquedo, que o forno é quente, que o barulho lá de fora é o cachorro latindo, que a comida é boa e gostosa.
A maioria das crianças surdas estão privadas destas relações desde que nascem, porque estas informações são transmitidas pela via sonora, que elas não têm ou têm de forma prejudicada. Isso significa que um grande número de crianças surdas chega às escolas com um universo conceitual muito restrito, a não ser que tenha tido contato com alguém que a expusesse a ele de uma outra forma, pela via visual, por exemplo, incluindo aí a língua de sinais.
Então, independente do tipo de escola onde esta criança estude, ela necessitará de um trabalho intenso de "recuperação" de experiências significativas em relação aos conceitos, primeiro em língua de sinais para depois acessar este conceito em português escrito. Recuperar o que a criança sabe sobre determinado conceito (objeto, pessoas, locais, acontecimentos, etc.) é o primeiro passo para desenvolver, de forma sistemática, a compreensão leitora.
Lembramos que a capacidade de "ler" o mundo antecede a de "ler" a palavra escrita (como bem diz Paulo Freire) e, para as crianças surdas, este processo se torna ainda mais complexo porque ela estará lendo uma palavra escrita em uma língua que não é a sua.
O que podemos fazer então?
Expor a criança a uma ampla variedade de situações onde ela possa se expressar livremente, primeiramente em língua de sinais, e depois, de forma sistematizada, à palavra escrita.
Conversando, contando histórias, folheando revistas, acompanhando o noticiário, visitando lugares interessantes, explorando objetos, fazendo experiências, assitindo filmes, brincando, navegando na internet, etc.

Isso nos mostrará o quanto a criança sabe sobre uma ampla variedade de assuntos e temas, e trará informações importantes sobre o estilo de aprendizagem desta criança, como compreende o que a cerca, suas expectativas e desejos. Assim, poderemos propor atividades mais significativas que facilitarão o seu acesso ao português escrito.
Para quem quiser saber mais sobre a leitura, a sugetão é:
1. A importância do ato de ler, de Paulo Freire, Costez Editora, 1982 (há edições posteriores). Um livrinho pequeno, delicioso, que trata do assunto com profundidade, em especial o primeiro texto.
2. O texto na sala de aula, organizado por João Wanderley Geraldi, Editora Ática, 2001. Traz uma coletânea de textos para reflexão sobre o ensino de português, fundamentais para compreender esse processo nas escolas regulares onde os alunos surdos estão incluídos.
3. Pensamento e linguagem: as últimas conferências de Luria, de A. R. Luria, Artes Médicas, 1987. Importantíssimo para compreender a relação linguagem-pensamento-consciência.
Até a próxima e um abraço a todas e todos,
Idavania Basso

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Perguntas

Olá, vocês.
Nossa reflexão sobre o ensino de português para surdos passa por questionamentos que são feitos com frequência em cursos, encontros, seminários, etc. "Qual o papel da LIBRAS no ensino de Português para alunos surdos?"
Esta é uma pergunta muito importante, com certeza. Por que? Simplesmente porque ela praticamente define a concepção que o professor tem sobre o ensino de surdos. Se acreditamos que a LIBRAS é uma língua como qualquer outra, que tem estrutura própria e preenche todos os requisitos necessários para constituir-se como uma língua de fato e, portanto, tem um papel fundamental na constituição das pessoas surdas, então ela é condição para que todo processo de ensino de qualquer conteúdo ou disciplina aconteça. Neste sentido, ela não é somente uma disciplina fundamental na educação de surdos, mas é "a" língua por meio da qual o ensino acontece, inclusive o ensino de uma segunda língua.
Uma outra postura completamente diferente, entende a LIBRAS como meio de comunicação e acesso às informações mas, mesmo considerada como língua, não tem um papel importante no acesso a uma segunda língua, por exemplo: ensina-se português escrito por meio do português falado.
São duas posturas diferentes que influem na maneira como o professor encara a elaboração conceitual nas aulas de português ou qualquer outra disciplina escolar.
Minha posição é que a língua de sinais favorece, e muito, a aprendiagem de uma segunda língua, no nosso caso, a língua portuguesa. Evidentemente há posições contrárias. Minha experiência e de outros pesquisadores tem mostrado que o ensino de qualquer conteito por meio da língua de sinais torna-se mais significativo e duradouro, trazendo ao aluno referências compreensíveis sobre pontos importantes dos assuntos estudados. Isso, sem dúvida, torna o aluno mais consciente do seu próprio potencial e mobiliza estratégias de aprendizagem mais eficientes e satisfatórias.
Quem quiser saber mais sobre isso, a indicação do livro da Profª Ronice Müller de Quadros - Educação de surdos - a aquisição da linguagem - Ed. Artes Médicas, 1997, permanece como fundamental.
Abraços a todas e todos.
Idavania

domingo, 9 de novembro de 2008

Leitura obrigatória

Olá, pessoal.
O ensino de português como segunda língua para surdos é um dos grandes desafios no estágio atual da educação de surdos. Pesquisas recentes apontam caminhos que passam, obrigatoriamente, pela aprendizagem da língua de sinais pelos professores de surdos, no sentido de instrumentálizá-los para um ensino mais eficaz e de melhor qualidade. Essa proposta também inclui, e não poderia ser diferente, um conhecimento profundo da língua portuguesa.
O ensino de português como segunda língua implica na aquisição de uma primeira língua pelos alunos surdos, que deve ocorrer o mais precocemente possível, pois é por meio dela que este aluno adquirirá linguagem, estabelecerá relações com o mundo em que vive e adquirirá conceitos cotidianos que são a base para a aprendizagem de conceitos científicos sistematizados pela escola.
Neste sentido, o contato com surdos adultos garantirá que as crianças surdas constituam-se como sujeitos culturais, construam uma identidade sadia e desenvolvam as habilidades necessárias para acessar o mundo em sua própia língua e na modalidade escrita do português.
Por isso, recomendo como leitura inicial o livro:
Educação de surdos: a aquisição da linguagem, de Ronice Müller de Quadros, Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

Olá, vocês!

Sejam bem vindos ao blog portuguesparasurdos.
Ele foi criado para partilhar reflexões e experiências sobre o processo de ensino do português como segunda língua para alunos surdos.
Nele vocês encontrarão dicas de leitura, atividades comentadas e muito mais.

Espero que gostem.
Idavania Basso